Homologada pelo Ministério da Educação em 2022 como um complemento à BNCC, a Norma sobre Computação na Educação Básica define as diretrizes essenciais para o ensino do pensamento computacional, cultura digital e mundo digital da Educação Infantil ao Ensino Médio. A urgência na sua adoção ganhou força recente: conforme determinação da Comissão Intergovernamental de Financiamento para a Educação Básica, as redes de ensino que não iniciarem a implementação ainda em 2026 sofrerão redução nos repasses de recursos a partir de 2027.
Para apoiar as escolas nessa transição obrigatória, o e-book intitulado “Computação na Escola: Uma abordagem transversal baseada em projetos“ reúne uma série de projetos práticos estruturados por faixa etária, englobando a Educação Infantil e o Ensino Fundamental. As propostas exploram lógica, cultura digital e a compreensão das tecnologias do cotidiano, tendo como base o Referencial Transversal de Computação (RTC) — um modelo estratégico que viabiliza a inserção desses conceitos na grade curricular sem a necessidade imediata de abrir uma nova disciplina.
Organizadas por etapas de desenvolvimento e temas integradores, as atividades guiam o professor passo a passo. Na Educação Infantil, o aprendizado ganha vida com o eixo “Brincando de Programar”; já nos anos iniciais do Ensino Fundamental, o foco se divide em propostas como “Eu e a Computação” e “A Lógica e o Lúdico”. Cada projeto inclui objetivos pedagógicos claros, lista de materiais e o mapeamento detalhado das habilidades exigidas pela BNCC.
Com o objetivo de apoiar as escolas na transição para a obrigatoriedade do ensino de computação, o professor e pesquisador André Raabe (Univali) disponibilizou nesta segunda-feira (1º) um e-book gratuito. A publicação ensina como estruturar essas atividades pedagógicas sem a necessidade de investimentos em laboratórios caros, uso massivo de telas ou criação de componentes curriculares específicos. O projeto propõe uma reflexão sobre a nossa relação com o ecossistema digital moderno, onde o uso massivo de dispositivos contrasta com o desconhecimento técnico generalizado.
“O botão da pipoca do micro-ondas quase sempre queima a pipoca. As sinaleiras raramente são sincronizadas. A gente vive cercado de tecnologias chamadas inteligentes, mas pouco questiona isso porque foi educado para consumir tecnologia, não para entender como ela é construída.”
PROFESSOR ANDRÉ RAABE
O guia fundamenta-se em um referencial desenvolvido por meio de pesquisa baseada em design, validada junto à rede municipal de ensino de Balneário Camboriú. A obra apresenta oficinas e projetos transversais voltados à Educação Infantil e ao Ensino Fundamental, permitindo a fusão de conceitos computacionais com disciplinas tradicionais (como matemática, ciências, língua portuguesa e história). A estratégia prioriza o desenvolvimento do raciocínio lógico, da autonomia criativa e da resolução de problemas de forma orgânica e diluída no currículo vigente.
O grande diferencial do material é o foco na computação desplugada, uma metodologia inovadora que ensina lógica e programação sem a necessidade de computadores nas etapas iniciais. Por meio de dinâmicas corporais, desafios em grupo e criação de comandos táteis, as crianças assimilam conceitos complexos de algoritmos e raciocínio de forma lúdica e prática.
“Existe uma diferença entre saber usar um aplicativo e entender a lógica que existe por trás dele. Quando a criança aprende a criar tecnologia, ela desenvolve visão crítica sobre algoritmos, redes sociais e sobre as escolhas tecnológicas do cotidiano.”
PROFESSOR ANDRÉ RAABE
O pesquisador, que participou ativamente da elaboração da própria norma nacional de computação para a educação brasileira, reconhece que a realidade das redes públicas de ensino ainda impõe grandes desafios para a aplicação dessas diretrizes.
“A norma foi construída em um nível muito alto para quem ainda está começando. Muitas escolas não têm estrutura, não têm formação específica e acabam tentando implementar tudo no improviso.”
PROFESSOR ANDRÉ RAABE
Como suporte prático para mitigar esse problema, o projeto vai além do e-book: os educadores têm à disposição um repositório online repleto de materiais de apoio e planos de aula estruturados por faixa etária, prontos para aplicação direta na rotina escolar.